Anjo em jaula

Nós humanos, somos naturalmente falhos. Não precisamos ter qualquer ilusão do contrário.

Esta é a definição, em palavras, que  senti cravada em meus pensamentos, ontem, quando cuidava do café da tarde e depois do jantar de Martin. Eu já havia estado em sua casa, que de forma tão especial foi denominada “Jardim das Rosas”, mas apenas ontem eu olhei em seu rosto e em seus olhos ao ser incubida da tarefa de servir seu pudim regado com calda de caramelo e seu copo de chá – o seu cardápio de uma tarde meio nublada, triste e indecisa de domingo.

Eu me surpreendi quando Ele me olhou direto nos olhos e abriu um largo sorriso para mim. Não resisti e acariciei a pele branca e fina do seu rosto. Encarando seus olhos azuis estralados na minha direção – não pensei em nada, além de que Martin é um anjo enjaulado num corpo teso, imóvel, mudo. Não se ouve qualquer gemido, qualquer tom ou lamúria  de Martin. O único som que ouvi de seus lábios nos três dias que “estagiei” no Jardim das Rosas foi quando, Ele, insatisfeito com a quantidade de chá que  estava sendo jorrado em sua garganta abaixo, cuspia a distância o excesso, causando tremenda  indignição de sua ajudante e risos de todas nós que nos ocupávamos com os outros moradores. Minhas simpáticas e competentes colegas  “temporárias” de trabalho  já estavam acostumadas com esta reação de Martin, assim como de todas as formas de tratamento apropriadas para os outros nove moradores desta ala, os quais vivem em uma grande instituição para pessoas de todas as idades e com diferentes graus de dificiência física e ou psiquíca. Ali, Eles são atendidos em todas as suas necessidades e em intensidade individualmente dosada.

Diferente das profissionais que atuam no “Jardim das Rosas” tudo para mim era novidade. Eu não sabia como e se poderia me inteirar com nossos pacientes. Eu não sabia sequer  porque eu me encontrava no fim de semana, quase no topo de uma montanha, circundada pelo Rio Lahn a cerca de 50 quilômetros de casa. No entanto, ao ser presenteada pelo sorriso de Martin e contactar sua alma de anjo ficou claro para mim que eu me encontrava no lugar certo, na hora certa.

Eu jamais serei a mesma depois deste fim de semana, às margens do Lahn. Eu me sinto um pouco melhor enquanto pessoa por ter optado, intuitivamente, por querer pertencer também a um outro mundo. Um mundo com outras perspectivas, e muitas outras limitações, mas que nos ajuda, concretamente, na lapidação de nossas almas, algumas vezes, perdidas entre o “ter” ao invés do “ser”.

Beijos e

uma líndissima semana, especialmente, para você!

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4 Responses to “Anjo em jaula”

  1. Querida amiga, lindo texto para uma excelente reflexão!

    Tomo a liberdade de ir um pouco mais além, entre o “ter” e o “estar”, já que não somos nada, apenas estamos alguma coisa! É esta a reafirmação que tenho da história de Martin contada por você, me perco em meus pensamentos e acredito que mesmo preso na jaula do seu corpo físico, os seus pensamentos são livres para voar!

    Beijos e um linda semana!

    Josy

  2. Neusa diz:

    Querida Josy, muito obrigada por sua visita e por ter dispensado seu precioso tempo para escrever para mim uma mensagem de coração para coração. Fico feliz que você compartilha agora um pouco da História de Martin. Um grande abraco e uma ótima semana para você e sua linda família!

  3. O presente, eterno momento, quantos sorrisos e quantos passam despercebidos querida Neusa…Obrigada pelo texto! Beijos

  4. Neusa diz:

    Obrigada querida Alexandra pela visita! Fiquei muito contente ao ler seu comentário! Um grande abraco e tudo de bom para você e sua linda família!

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