Posts Tagged ‘Alemanha pós-reunificação’

Impressões do leste

Domingo, Outubro 25th, 2015

ou da Alemanha – aquém do Muro (de Berlim, de mentalidades, tradições e superstições).

No último fim de semana eu estava realmente livre e feliz com a perspectiva de uma semana de férias e uma breve viagem para o leste do país. Meu interesse por àquela parte do país é antiga e eu estava empolgada por, enfim, conhecer um pouco mais da Alemanha lotada de resquícios de quarenta anos de socialismo e isolamento do ocidente. Minha aventura iria desta vez para 245 quilômetros aquém de Berlim. Eu conheceria o coração de Sachen e três de suas principais cidades:  Chemnitz, Dresden e Leipzig.

Minha curiosidade por pentencer por algumas horas à vida, História e cultura da região era enorme e valeu a pena o cansaço da ida através de horas intermináveis de trem, mas por um preço ( promoção) sensacional – 29 Euros para 3 pessoas e o stress da volta dirigindo por quase 5 horas.

Sim, uma sucessão de aventuras, eu vivencie nesta última semana e no momento me sinto cansada e despreparada para voltar amanhã à rotina de trabalho, mas toda nova experiência acrescenta e por isso sempre compensa.

No meu primeiro dia completo em Sachen visitei Chemnitz – o nome novo para a terceira maior cidade do estado, a qual chamava-se antes da reunificação Karl Marx Stadt. O trânsito tranquilo mesmo no centro  foi a primeira surpresa positiva que tive da cidade. Os  prédios quadrados e antigos localizados entre largas vias me jogaram para o passado que já observei muitas vezes em fotos da ex RDA. Achei muito engraçado encontrar ao mesmo tempo a marca principal da cidade – o rosto de Marx esculpido em pedra e um pequeno restaurante turco, onde serve-se, naturalmente, a especialidade  mais popular na Alemanha – o Döner Kebab. Bastante exótico! Não pude deixar de pensar se Marx gostaria de Döner, se tivesse a chance de experimentar o sanduíche turco.

Observei também a discrição mais acentuada dos estrangeiros que transitavam pelas ruas desta cidade. Sente-se um certo peso na atmosfera e pode-se observar certo medo e insegurança nos olhos de pessoas com pele mais escura ou das mulheres envoltas em suas vestes muçulmanas. O que, infelizmente, é compreensível, considerando o grande tema “refugiados” e etc, tão negativamente em pauta no país, cujas manifestações  mais radicais ocorrem justamente na cidade que visitei no dia seguinte – Dresden.

Como principal adjetivo para Dresden penso no termo: Fascinação! Muita História, arte, cultura e beleza em muitas esquinas! Para a minha alegria, meu dia em Dresden foi fantástico e embriagente de beleza e harmonia entre culturas, arquiteturas, passado e presente.

A terceira cidade que planejei visitei pelo seu peso histórico foi Leipizig. Para não perder tempo fui passear de ônibus através da cidade, com as crianças, outros turistas e um guia muito simpático e bem informado, o qual nos mostrou muitos cantos da cidade e nos contou muitas histórias atrás das fachadas de prédios, vilas e apartamentos que compõem o grande centro da cidade, a qual tem, segundo o guia, um número maior de habitantes do que a capital do estado – Dresden.

No meu último dia de leste estive novamente no centro histórico mais efervecente do país – Berlim. Queria muito contagiar minhas filhas com a História do próprio país. Não sei ainda se tive algum sucesso…

Hoje, de volta para o aconhego de casa e as preocupações com a volta ao trabalho, concluo que estive poucas horas no leste para tantas informações e impressões. Preciso voltar num dia destes…

Beijos e uma semana

sensacional para vocês, para todos nós!

Ps. Fotos, talvez amanhã ou depois…

“O casal alemão dos sonhos reencontra-se … devagar”

Segunda-feira, Outubro 4th, 2010

Rotkäppchen,  sobreviveu à crise do leste e invadiu o mercado ocidental.

Ontem  tivemos a chance de vivenciar o vigésimo aniversário da reunificação alemã. A natureza nos presenteou um lindo dia de sol, e um calor morno e fantástico transformou as nossas horas em um convite delicioso para um passeio pela natureza colorida de outono.

Tínhamos muitos motivos para comemorar, o dia lindo, mais uma festa da domocracia para nós brasileiros que tivemos novamente  oportunidade de eleger  (ou tentar) o(a) próximo (a) administrador (a) do Brasil e aqui no centro da Europa brindamos  e especulamos os 20 anos da “reconcialiação do casal:  leste e oeste”.

A grande festa da “re-unificação” aconteceu  propriamente bastante longe da minha vila, em Bremen. Lá estavam presentes grandes personalidades políticas como Merkel, Khol e  Wulff, o qual em seu discurso abordou um dos temas mais quentes e polêmicos  por aqui: integração.  A questão integração é super complexa e compreende não apenas alemães do leste na alemanha do oeste, mas a grande massa de imigrantes de diferentes partes do planeta que aqui na Alemanha buscam, por motivos diferentes, novos rumos para as suas vidas. O acento da problemática pertence à comunidade muçulmana que por suas convicçõoes religiosas e políticas são, na sua grande maioria,  inflexíveis.  Integração implica logicamente em adesão à novos costumes, novas posturas, nova dinâmica social, domínio de um novo idioma e sobretudo estar aberto às novidades. Algo que se encontra um pouco distante dos grupos muçulmanos. Posicionamento este que mesclado ao rascismo dos grupos de direita e esquerda existentes dentro da Alemanha , transforma o ideal de integração pregado nos discursos políticos em pura utopia.

Quanto à questão integração entre os próprios alemães os indícios são mais animadores.  Os clichês permanecem, mas incomodam somente as gerações anteriores. A geração “unificação”, ou seja as crianças nascidas em 1990 no leste da Alemanha  são unânimes em afirmar que não existe para elas duas Alemanhas e são capazes de ouvir com interesse as informações e experiências que seus pais e avós adquiriram enquanto cidadãos da ex-Alemanha socialista, mas não se sentem realmente envolvidos neste passado histórico.

Um balanço prático dos 20 anos de casamento:

  • Migração:  em 2008 viviam no leste  1,7 milhao de pessoas menos que em 1990. Cada um, em 10  habitantes  deram as costas para o leste;
  • Em 2008 um alemão do leste tinha um  rendimento  médio de 15.536 Euros – em 1991 eram 8156;
  • Empresários do leste faturam 76,5 em relação aos colegas do oeste – em 1991 46%;
  • 17% dos alemães do oeste dependem da ajuda financeira do estado para atender as suas necessidades materiais básicas, enquanto que no oeste 8%;
  • Quase idêntico é o acesso aos aparatos como:  Handys: 86% dos alemães do leste e oeste telefonam usando celular.  Em cada 15 (leste) e 16 (oeste) entre  100 salas, estão presentes televisores de última geração. Máquina de lavar louça é utilizada em 55% das cozinhas do leste e 64% do oeste;
  • Aposentadoria – padrão básico:  no leste 1086 Euros, no oeste 1224 Euros.
  • Contrariando muito  as versões pessimistas e preconceituosas atualmente 81% dos alemães consideram a reunificação do país como positiva e há um consenso geral de que nem tudo por lá foi negativo – o sistema educacional e de saúde, por exemplo, são mencionados  com respeito.

É compreensível que as sequelas de 40 anos de separação não foram ainda totalmente superadas apesar dos 20 anos de reconciliação, mas acredito que em todas as cabeças esclarecidas deste país existe a visão clara de que apesar de todos os desafios que já foram superados e apesar das feridas, que ainda estão abertas, é 100% melhor viver em uma Alemanha inteira do que em uma metade da Alemanha.

 

Para ler mais sobre o cotidiano na Alemanha socialista você tem a opção de se interar do

http://www.neusa-cortez.de/o-paraiso-sem-bananas-resenha-2/

 

Beijos.

Fonte: Rhein-Zeitung, n° 229 – sábado, 02/10/2010.

Wessis x Ossis

Terça-feira, Abril 27th, 2010
República Democrática Alema - Museu - às margens do Spree, Berlim

República Democrática Alemã - Museu, às margens do Spree, Berlim

Logo que voltei do Brasil, enquanto tentava colocar um pouco de ordem no caos que reinava no nosso apartamento ( depois de quatro semanas em “férias”), eu como sempre ouvia o rádio… e uma brincadeira dos locutores da minha rádio preferida, chamou a minha atenção: eles perguntavam para os ouvintes se eles consideravam também que “Ossis” (denominação  pejorativa e até mesmo ultrapassada, utilizada para especificar  os alemães do leste do país) tinham uma raiz própria…  o assunto, lógico, me interessou bastante e fiquei atenta ao porquê da questão em  pauta…

Na sequência da programação entendi o porquê da brincadeira, quando eles explicaram que uma moça de Berlim do leste estava movendo uma ação judicial contra uma empresa porque segundo Ela, a sua origem teria sido o motivo pelo qual nao foi admitida na empresa.  Ela recebeu o currículo de volta com uma observação: ” -Ossi”. Transtornada e se sentindo discriminada Ela deu entrada à uma ação judicial, a qual perdeu, pois segundo os porta-vozes da empresa Ela não foi admitida por não possuir as competências necessárias para ocupar o cargo e não por ser uma “Ossi” !

A questão levantou uma polêmica tão grande na mídia que a moça não pode comparecer pessoalmente ao tribunal. Perguntava-se se os alemães do leste pertenciam à uma outra estirpe…

Antes de ontem, li que a moça está recorrendo da decisão judicial em outra instância.

Saber realmente os motivos pelos quais ela não foi selecionada para a vaga na empresa é difícil, porém uma realidade ficou para mim, mais uma vez, muito clara: a reunificação alemã ainda não aconteceu de fato!

Beijos!