Posts Tagged ‘Índia’

Índia sob nova ótica

Terça-feira, Julho 26th, 2011

Respeitar o que é "diferente" representa um tremendo desafio.

Respeitar o que é "diferente" - representa um tremendo desafio.

Na tarde cinza e chuvosa, me encontro por algumas horas só. As criancas estao ocupadas em brincar, Jörg apesar das férias está entusiasmo por terminar a sua última obra – sua oficina. Estava pensando em como vivemos uma semana triste. O ataque de terror em Oslo, a morte de Emy Winehouse, a fome e a seca em vários países da costa leste da África. É revoltante a sensacao de impotência que sinto frente a tantos acontecimentos trágicos que nos circundam. Por isto resolvi publicar algo bem diferente. Resolvi que compartilharia a possibilidade de viajarmos para a Índia ao lermos as experiências de viagem de uma pessoa muito querida – Apparecida Zaroni –  e que me proporcionou o prazer e a licenca de publicar aqui as suas impressoes mais pessoais sobre este país quando o visitou. A descricao de sua viagem é fantástica e me ajudou muito a quebrar outros tabus.

“Vivendo a Índia em minha viagem

Dizer para alguém que você vai fazer uma viagem à Índia desperta reações adversas: há os que aprovam e aplaudem; há os que estranham e se escandalizam com sua decisão.

Uma coisa é certa: ninguém fica indiferente à sua comunicação.

Só por isto já se vê que a Índia desperta no imaginário das pessoas uma repulsa ou atração, muitas das vezes sem nenhum fundamento. Todos, sem exceção sabem de algo, ouviram contar uma história, formaram uma impressão a priori e como aquele país/continente é  mágico e cheio de mistérios, a expectativa se instala.

Foi cheia de expectativa que, em início de janeiro, com um grupo de amigos liderado por um indiano, rumei via África do Sul para um passeio à  Índia.

No primeiro dia, não nego, assustei-me. O trânsito caótico, a multidão na passarela da mesquita de Haji Ali que me deixou meio perdida, o cheiro forte  exalado do mar naquele lugar estranho,  o grande número de mendigos, muitos mutilados na passarela e o gosto do alimento, tão diferente de nosso costumeiro arroz com feijão, provocaram em mim  o famoso choque cultural.

A cada dia sempre aparecia algo de inédito: suntuosos templos, cavernas misteriosas, fortes enormes, mesquitas, manada de búfalos em meio ao trânsito, mercados movimentados, vacas solitárias pelas ruas, camelos puxando carroças, caminhões coloridos e enfeitados, festas animadas de casamento, vendedores ambulantes com mercadorias  de preço accessível.

À medida que os dias foram se passando, quase sem aperceber-me, fui   me apaixonando pela Índia, por seu povo com seu olhar penetrante, sua hospitalidade, sua cultura,  sua arquitetura, seus templos e monumentos milenares.

Tomar o masala  chai  (chá com mistura de especiarias e ervas aromáticas) após as refeições, comer  biryani  e  pulau ( tipos de arroz com  misturas) saborear o  puri, o chapatis ou o naan  (espécies de pão) ou  o pastel somoza foi se tornando rotineiro e agora, à distância,  chego a sentir  saudade daquele gosto.

A viagem  no avião da South África, com escala em Joannesburgo (África do Sul) tanto na ida como na volta foi a maior dificuldade que enfrentamos não só pela distância como pelo desconforto de suas instalações, na classe econômica.

Dos  meios de transporte que usamos, destaco  a liteira , carregada que fui por quatro homens na entrada da ilha,  quando do acesso à caverna de  Elefhanta (Mumbai); o riquixá que usamos  quando chegamos ao Taj Mahal (Agra); o auto riquixá – o popular ‘tuc- tuc”  que várias vezes nos transportou  pela cidade de Bubhaneswar e o elefante todo enfeitado e pintado que nos levou até o Forte Amber, na cidade de Jaipur.

As emoções mais fortes foram desencadeadas quando:
– da visita  à casa de Ghandi;

– do atravessar o Portal da Índia;

– do sentir um pouco os ensinamentos budistas nas cavernas Kanheri, em MUMBAI;

– do extasiar com a beleza do hall de entrada do Hotel Ramada Plaza, onde  nos hospedamos em Delhi;

– do convite à interiorização, no templo Lótus e quando do percorrer  embevecidos as alas do templo Akshardham,  também em DELHI;

– da visita ao monumento símbolo do culto ao AMOR – o indescritível Taj Mahal, em AGRA;

– de elefante, chegamos ao Forte Amber;

– apreciamos o Palácio Hawa Mahal- o palácio das janelas, em JAIPUR;

– das minhas andanças, sozinha, pelas ruas de BUBHANESWAR;

– vimos crematório público em plenas funções na cidade de PURI;

– fizemos a massagem ayurvédica que ativou nossa circulação, ao mesmo tempo que relaxou nossos  tensos músculos após tantas andanças  no micro ônibus que  seguramente nos transportava pelas ruas e estradas indianas.

Na Índia, sons, cheiros, cores, sabores, movimento de vida, velocidade do tempo têm  uma originalidade e uma característica especial. Se tudo é difícil de entender  pela originalidade e pelo ineditismo, mais difícil torna-se  explicar.

A Índia dos contrastes nos leva  a indagações sem respostas claras, mas  não deixa de ser um enigma difícil de entender:

Por que tanta  gente pobre  em meio a um PIB crescente?
Por que tanta desurbanização frente  a uma tecnologia avançada?
Por que tantos desabrigados ante a suntuosidade de prédios recentemente construídos?

A India dos contrastes nos deixa uma imagem misto de sonho e realidade como a:

  • da jovem de sari rosa pink  bordado de pedrarias brilhantes alimentando vacas num curral lamacento de barro preto que vimos  da janela do ônibus;
  • do festival de pipa, em Jaipur,  colorindo o céu (os soltadores   calmamente estavam posicionados sobre as lajes do casario) e nas ruas, o trânsito caótico;
  • de homens mijando pelo chão dos caminhos, enquanto no ar pairava   um misticismo  e um mistério enigmáticos.

A Índia dos contrastes provoca-nos muitas exclamações, muitos questionamentos, porém mais de que tudo  isto, um mundo de reflexões.

A experiência de visitar terras do oriente foi  para mim, como ocorre em todas as viagens,  intransferível e despertou o desejo de  voltar outra vez ao país misterioso.

Vamos?”

Apparecida Zaroni (fevereiro 2011)

Beijos.