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Na primavera- 1945- chegam os americanos

Segunda-feira, Junho 7th, 2010

Memorial aos mortos na 1a e 2a Guerra Mundial - Mermuth

“Há 65 anos atrás o nosso munícipio – Eifel – também foi ocupado pelos soldados aliados”.

Este é o subtítulo de um depoimento que li, um dias destes, num caderno especial do jornal regional. Eu achei interessante a forma direta que o Sr. Werner utilizou para expressar a sua visão pessoal quando, juntamente com sua família e vizinhos, ele vivenciou a chegada dos americanos e depois a dos franceses no município vizinho à Hunsrück.

“Muitas pessoas tiveram que deixar as suas casas. Em muitas situaςões, os aliados se comportaram como vândalos. E  ao cair da noite as pessoas tinham que permanecer em suas próprias habitaςões (Ausgangssperre).

Com os americanos a ocupaςão não foi tão brutal como a  francesa. Os soldados americanos presenteavam as crianςas com chocolate e chicletes. Meses depois chega também, como iniciativa americana, comida na escola.

Mais desagradável foi a ocupaςão francesa, a partir do verão de 1945. Vilas inteiras foram ocupadas por famílias de soldados ou destruídas. Para os agricultores, sobretudo, o domínio francês foi quase intolerável, pois tinham que assistir passivamente a sua própria  produςão – por exemplo – de batatas, no outono, sendo transportadas para fora de suas propriedades  e retornando em abril em forma de sementes, as quais deveriam ser compradas. Os agricultores reconheciam os mesmos sacos de estopa que haviam usado para embalar a colheita, antes que esta se tornaria posse dos franceses. Uma explosão de revolta não era pensada… as pessoas estavam com as suas reservas de energia esgotadas pelos longos anos de sofrimento com àquela guerra. Sobre a qual se falava apenas em meias palavras pelos cantos das casas… o sentimento de medo e resignaςão prevaleciam… não havia tempo e espaςo para mais problemas…

Os franceses eram, na sua maioria tão pobres, que não havia possibilidade de se obter nada deles, a não ser talvez lentilhas com pedras ou tâmaras sujas.

Uma vez, tivemos acesso à cultura francesa através do Instituto Francês em Mainz.

Interessante foi também a apresentaςão de um filme sobre a boa convivência entre franceses e angerianos! Só para quem queria acreditar!

Casamentos entre franceses e alemães nao existiram, já que havia muitos tabus de ambas as partes (erbfeind – heranςa de inimizade). Simplesmente, algum prisioneiro de guerra trouxe para cá, depois de muitos anos, sua noiva francesa e alguns jovens se aventuraram por terras estranhas…”

Depoimento para o caderno “Heimat” – Rhein Zeitung em 05/ 05/ 2010

65 anos sem a Segunda Guerra Mundial

Quarta-feira, Maio 5th, 2010

Monumento em homenagem às vitímas do Holocausto - Berlim

Desde que voltei do Brasil, depois de realizar a missão “quase impossível” de lancar o meu livro “O Paraíso sem Bananas” tenho estado muito inquieta, entre outros temas, também com um assunto que vem ganhando espaço nas colunas de jornais e que sinceramente  faz a minha pele, literalmente, arrepiar!  Comemora-se este ano os sessenta e cinco anos do fim de uma das mais trágicas guerras de todos os tempos – a Segunda Grande Guerra Mundial.

Tenho acompanhado com muito interesse uma série de depoimentos que o Rhein Zeitung tem publicado sobre o como se pôde sair “quase” ileso de uma guerra desta proporcão, estando em território alemão ou nas frentes de batalhas das forças armadas alemãs.

Eu sei que não é ficςão e exatamente isto o que me fascina, porém eu tenho a impressão – quando leio ou ouço os depoimentos – que estou vivenciando um roteiro de um filme, o qual não teve um final feliz.

Quando se estuda esta guerra somente enquanto fato histórico, não se pode sentir o drama das pessoas que não a queriam, que tinham planejado simplesmente dar continuidades às respectivas vidas, algumas em melhores condições, outras em piores – mas o cotidiano estava lá para ser vivenciado, o qual foi interrompido por “autoridades” que invadiram outras vidas e as ordenaram que abandonassem  todos os seus planos para o futuro porque a Alemanha estava em guerra. Um ditador louco e seus amigos, foi  envolvendo as pessoas  numa guerra contra o mundo…

Hoje pela manhã, lendo o jornal, meus olhos correram rápido para a página 17, pois na página “Lokales” – Rhein-Hunsrück-Kreis – no canto esquerdo eu li a seguinte nota: “weise findete ein Zuhause” – órfão encontrou um lar e depois explicaram: “a 2a guerra mundial fez muitas crianças órfas. Assim também, como uma  crianςa que precisa de assistência, cuidados (Pflegekind) nossa testemunha cresceu em uma fazenda aqui na região. Sua tocante história, Ele nos conta  na página 17”.

Estando na respectiva página eu comecei a ler o depoimento daquele Senhor e paralelamente a observar sua foto atual, a qual me transmitiu ainda  jovialidade, mas bastante ceticismo. Sua história é comovente, pois sua mãe,  um dos seus irmãos, primos e tios morreram, depois de um bombardeio aéreo sobre Koblenz, que fica apenas  cerca de 34 kms da minha vila! Seu pai já havia morrido quatro anos antes. Ele apenas  sobreviveu porque foi antes enviado para um abrigo especial para crianças, num outro município (Westerwald) não muito distante de Koblenz.

Ele ainda tem encravada na memória a lembrança daqueles aviões  que observou, numa manhã qualquer, quando estava brincando no jardim…  os mesmos aviões que estavam carregados das bombas que matariam quase toda a sua família, não é tocante?

Dois dias depois ele foi informado que estava órfão também de mãe. Ela foi, assim como o seu irmão de quatorze anos e outros membros de sua família, atingida letalmente pelas bombas que aviões da forςa aliada jogaram sobre Koblenz no dia 22 de abril de 1944.

Àquela crianςa e muitas outras que não entendiam nada  de  guerra e porque estavam sozinhos no mundo, foi obrigada a secar as lágrimas o mais rápido possível e aconselhada a sufocar a dor do medo e da solidão e buscar um jeito de sobreviver ao caos que se vivenciava por todos os lados, em uma Alemanha esfomeada e gelada. A miséria era a cena que predominava por todo o país, sem discriminar  os absolutamente inocentes…

Walter, a testemunha da reportagem do jornal desta semana, considera-se ainda com sorte, pois foi acolhido por uma família desta região que lhe ofereceu mais que um abrigo, ofereceu-lhe realmente o sentimento de pertencer àquela família e aos poucos Ele foi integrando-se à uma nova rotina de vida, suas feridas ao menos superficialmente foram sendo lentamente cicatrizadas…

Dias depois começou a frequentar a escola. A qual funcionava, de forma improvisada, em um cômodo  da casa daquela comunidade, que era usada normalmente para  se fazer pão – Gemeindebackhaus – pois a  escola propriamente, foi destruída por fogos de artilharia! Ele foi recebido com frieza pelos colegas, a qual foi quebrada pouco tempo depois. Walter encontrou, naqueles dias difícieis um amigo, uma criança que era muito querida na escola. Esta amizade perdura até hoje… não é lindo?

Uma vez se sentindo integrado à sua nova família, Walter demonstrou ser uma criança bastante inteligente e conseguiu acumular apenas êxito na escola. Assim foi aconselhado a optar pela carreira de professor, sendo enviado para um internato. Seus dias ali  não foram os melhores de sua vida, mas lhe propiciaram, após obter o seu diploma, voltar para Hunsrück  e retomar a sua vida no lugar que ele definiu como sendo o seu verdadeiro lugar. Se suas feridas da infância estao realmente cicatrizadas, ele não soube responder…