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História na pele e na alma

Quinta-feira, Outubro 27th, 2011

"O pensamento parece um acoisa à toa, mas como é que a gente voa quando comeca a pensar (...)."

O que posso hoje compartilhar num espaςo tao pequeno e ao mesmo tempo tao amplo? O mundo virtual… sem janelas, sem portas, sem fronteiras! Não tenho vergonha e ao mesmo tempo tenho vergonha de expor-me neste espaςo que não tem paredes, parece que as vezes também não tem ouvidos ou qualquer dos sentidos. Pergunto-me porque escrevo e em seguida  ouςo a resposta de dentro do meu íntimo – escrevo porque depois me sinto livre do que antes pesava sobre mim como toneladas. Preciso colocar nas teclas meus pensamentos de agora. Talvez não interessa realmente a ninguém como me sinto agora. No entanto já sei que depois vou me sentir com mais esperanςa de ter um dia feliz e também de proporcionar bons momentos para mim mesma, minhas filhas e todas os pequenos e grandes que vou encontrar quando cair a tarde de quinta-feira.

É difícil entender, mas tenho que admitir que há dias  minha sensibilidade encontra-se à flor da pele. Me sinto extremamente tocada pelas alegrias, tristezas, preocupaςões e dores das pessoas que tenho encontrado. Tenho encontrado muitas pessoas, muitas mesmo… o que é uma grande dádiva! Confesso que gosto de encontrar pessoas de diferentes idades, com diferentes perspectivas, com diferentes histórias e origens. O meu problema atual é que não estou conseguindo me desprender  da energia que estas pessoas me transferem. Estou impregnada da energia, das necessidades, dos sentimentos, dos traumas e dramas também das  pessoas com as quais tenho tido contato. De forma mais aguda e inesperada tenho mergulhado no mundo de pessoas maravilhosas que se propuseram a compartilhar comigo suas histórias pessoais com relaςão a última guerra mundial. Estou muito surpresa e assustada com o meu envolvimento profundo nas lembranςas das minhas testemunhas. Tenho mergulhado em seus mundos particulares  e sinto a dor que elas ainda sentem quando vivenciaram o horror do medo, do frio, da fome, da perseguiςão, da falta de perspectivas, da inseguranςa se viveriam nas seguintes horas ou não. Na última quinta-feira conheci uma vila bem simpática nas proximidades do aeroporto Hahn e um casal de berlinenses, os quais foram juntamente com suas famílias profundamente atingidos pela guerra. Fiquei muito feliz por poder visitá-los e compartilhar por algumas horas da companhia discreta deles. Eles me confiaram relatos, cartas, fotografias de uma família arrebentada pela guerra. Eu não sabia que me envolveria tanto com as experiências das minhas “testemunhas do tempo”. Fico horas pensando nelas e tentando digerir suas dores, suas lembranςas. Não tenho conseguido viajar de volta com a facilidade que gostaria. Há duas semanas atrás tive o prazer de visitar duas Senhoras muito lindas, gentis e amáveis. Ainda gostaria de estar abraςando as  duas e muito forte! Eu gostaria que elas pudessem dividir comigo seus traumas antigos, esvaziar a alma da tristeza dos dias tão difícies de primeira infância. Eu gostaria muito que elas soubessem que eu sou mais do que uma pessoa apenas interessada em suas experiências como “filhas da guerra”. Eu gostaria que elas soubessem que me sinto profundamente envolvida com suas histórias de vida, as quais não se encontram registradas em nenhum livro de História do mundo inteiro. O que eu tenho vivido recentemente posso denominar como História na pele e na alma.

Já me sinto um pouco melhor!

Beijos.

A Casa das várias geraςões

Quinta-feira, Outubro 6th, 2011

Em Berlim - homenagem ao soldado soviético: herói para alguns, puro vilao para outros...

Desde sábado tenho me esforςado para entrar no rítmo de férias. Afinal estamos sim de férias, pelo menos eu e as crianςas. Elas por duas semanas e eu por uma. Acabo de concluir que não sei mais o que são férias, a não ser o fato de poder dormir um pouco mais depois de ser despertada pelo relógio do meu príncipe, em torno de 5, e como uma boa Amélia organizar o seu café e o seu lanche – poder voltar cheia de sono para mergulhar na cama e continuar o sonho interrompido. No entanto, em meio das visitas das vizinhas e da necessidade de colocar a faxina em ordem, tenho aproveitado os meus preciosos dias de férias para investir no meu novo projeto de livro. Eu já tentei desistir dele, por vários motivos… mas ele me persegue como doido e vai se concretizando sem que eu tenha muito controle sobre o seu formato, suas cores, seus detalhes. Apenas o seu conteúdo me interessa. O seu conteúdo é denso de História e emoςões. Os meus personagens são reais e me confiam as suas dores, os seus medos, as suas lembranςas mais latentes do tempo em que a Alemanha estava atravessando uma de suas fases mais negras – a Segunda Grande Guerra Mundial. Creiam-me, as lembranςas são perversas e perseguem àquela geraςão. Não são muitos deles que estão dispostos a exporem as suas experiências e sentimentos mais profundos de guerra. As feridas estão abertas sob uma camada de pele. Após os meus 11 anos de convivência com estas pessoas que não assistiram a guerra, muito menos ouviram ou leram sobre ela, mas sim a vivenciaram – me recuso a anular-me e não revelar que eu conheςo e ouςo pessoas que não promoveram a guerra, que não compartilhavam dos ideais nazistas, mas sofreram na pele as consequências de um furacão de morte, violência, desolaςão.

Hoje eu tive um dia muito especial de férias, fui para um povoado totalmente desconhecido para mim, embora ele se localize no mesmo município – Külz. Fui sozinha, pois para Laura e Vic seria extremamente entediante tomar uma xícara de café com pessoas acima dos 60. Para mim foi uma honra poder sentar-me à mesa com tantas pessoas que já viram e experimentaram muito mais da vida do que eu. Eu estava muito feliz por ter tido entrada livre em um evento promovido pela “Casa de várias geraςões” e poder compartilhar um pouquinho das experiências/vivências de uma “Filha da Guerra” /”Kind des krieges” – uma Senhora adorável nos relatou as suas lembranςas de tempos muito difícies, de muito medo, inseguranςa e dor. Seu pesadelo deu-se início quando iniciava a sua vida escolar e ainda a persegue.

Ao voltar para casa, só pude pensar no quanto valeu a pena superar a minha inseguranςa ao atingir àquela sala lotada de pessoas totalmente desconhecidas para mim e perceber que a minha presenςa ali era algo totamente inédito e estranho. Não importa agora, posso afirmar que valeu muito a pena, conheci outras pessoas muito agradáveis e que estão abertas ao meu projeto. Quem mais? Ainda não sei…

Beijos.